MEMÓRIAS DE UMA ESCOLA NORUEGUESA EM PORTUGAL
1980-2005

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CARTA À ESCOLA SECUNDÁRIA DO FEIJÓ
(Texto da autoria da professora Fátima Rosa, lido aquando do lançamento do livro “Memórias de uma Escola Norueguesa em Portugal”)

Feijó, 02 de abril de 2022 

Querida Escola Secundária do Feijó, 

Como o tempo passa!… 

Lá longe, onde a memória se senta a olhar para o passado, erguias-te, estranhamente plantada nesta quinta e abrigada por um moinho que te deu voz. Trazias contigo o cheiro bom de um livro acabado de comprar e por desvendar. Neste labirinto norueguês, de uma madeira de tom castanho-escuro, desembrulhavam-se as escadas, como um carrossel, e giravam, rodeando a biblioteca, a varanda, os campos de jogos e a mata até nos sentirmos perdidos. Nunca te dissemos como eras linda!… E arrependemo-nos por isso… 

Nesse tempo respiravam-se ainda os alvores da revolução de Abril e a rebeldia dos jovens manifestava-se de múltiplas formas. A paixão pela música e pelas novidades ganhavam dinamismo e projectavam-se em inúmeras actividades. 

Às vezes, Alberto Caeiro vinha guardar os seus rebanhos e deambulava nos arredores como se morasse em todas as casas e, no silêncio das pastagens, deixava-se ficar. Cervantes também nos emprestava, de quando em vez, um D. Quixote lingrinhas que lutava contra o moinho. Ai o som do aço da espada… a confundir as mentes e os pensamentos dos jovens, toldando-lhes a memória…  

Shakespeare, o mestre Gil e Brecht davam as mãos, como um Parente, e desembrulhavam histórias que ofereciam pelos caminhos térreos do labirinto e pelos caminhos densos da floresta. Os faunos, os duendes e outros seres minúsculos espreitavam em cada ramo para, também eles serem estrelas naquela Noite de Verão. Afinal, tudo transpirava arte e ternura. 

A verdade é que tu estavas muito à frente do teu tempo: quando S. Pedro abria os céus, logo surgiam engenheiros e arquitectos a programar uma saída seca das salas. Uma cadeira bastava para alcançar a outra margem, ou um colo amigo que a juventude oferecia a alguma professora mais incauta e despreparada. 

Como o tempo passa!… 

Também nós, professores e funcionários, carregávamos nas mãos a energia da juventude e éramos como rostos de aguarela que se iriam carregar com a passagem dos anos.  

De mãos dadas com os alunos, o convívio era o milagre do ser humano. Afinal, cada um de nós era o universo. Do “sexo das luzes” às bruxas da Idade Média ou aos actos eróticos do Frei Luís de Sousa, o pobre do Freud tentava decifrar e explanar os lapsos da memória e do tempo. E se algum grito emanava de uma porta entreaberta, sabíamos que a Filosofia fizera das suas. Se um vulto se estendia no ar, pendurando-se nos ares “chique a valer”, à boa maneira parisiense, logo descortinávamos a diferença entre a teoria e a prática. O bailado dos gestos tomava conta do palco. 

A sala de professores era uma animação – entre um pastel de nata, muito latino, por sinal, as anedotas e os arranjos de namoricos, conjugava-se um só verbo: viver. 

Ameaçados por vezes por uma bomba ou pelas infiltrações que o tempo deixava antever, os missionários mantinham-se determinados e o direito à greve parecia-nos justo… sim, sim… também nós éramos rebeldes!… 

Nessa altura, íamos trabalhar mesmo fora de horas. Dir-nos-ão que era por carolice… talvez… mas porque gostávamos de ti e do teu colo. Pelas noites dentro alguém traçava a régua e esquadro as horas que iriam ser habitadas, enquanto a maioria visitava o deserto de umas férias merecidas. 

Mas o tempo foi passando e os ponteiros dos relógios corroeram as estruturas nórdicas. Estavas doente… E como se morássemos num quarto gigante, protegemos as tuas paredes, fortificámos os sonhos e pintámos a vida debaixo de um céu visual. 

Ficaste como nova porque abrimos todas as portas. Ai de “quando um coração se fecha”, pois “faz mais barulho do que uma porta”¹. 

No mais fundo de nós sabíamos que definhavas a cada instante e, novamente, assistíamos à luta entre o Velho e o Novo. 

Que frutos deliciosos saíram do teu ventre. Como numa estalagem do Far West (assim te chamou um pai) à espera que uma diligência passasse, os jovens partiram, cresceram, mas não te esqueceram. 

Unidos por um sonho quase utópico, comungámos em uníssono e almejámos um mundo melhor. Lutámos, protestámos e partilhámos os mesmos ideais. Conseguimos! A tua filha recém-chegada estava a crescer aos nossos olhos e já dava os primeiros passos quando tu tombaste. Quando chegou a hora, as nossas almas caíram, mas a esperança alimentou-nos… 

Hoje, ouvimos “cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair”². 

Como o tempo passa!… 

E antes que a penumbra chegue, e que mais alguém queira ser pássaro nas nuvens, é tempo de te dizermos o quanto te amámos sem palavras e o quanto nos amamos uns aos outros… antes que seja tarde! 

Fátima Rosa 

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¹ António Lobo Antunes 
² Fernando Pessoa